Segunda-feira, Maio 09, 2005

há uma musica do povo


(fernando pessoa)

Há uma musica do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!


fernando pessoa

Terça-feira, Abril 26, 2005

Acetei o testemunho que passou a amiga charlotte
e ai vai...
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
seria um livro aberto...

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
sim, o sete-luas do "memorial do convento" de saramago...

Qual foi o último livro que compraste?
"hei-de amar uma pedra" de a.l.antunes

Que livros estás a ler?
nenhum...

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"o senhor dos aneis" de tolkien
"austerlitz" de sebald
"o dicionario da lingua portuguesa"
"memoria de elefante"de a.l.antunes
"codigo da vinci" de d.brown


A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
à nina
por ser uma pessoa de quem eu quero saber o que lhe interessa...
à dulce porque também me interessa o que ela acha e
à lina
porque é uma amiga que gosto imenso...

Sexta-feira, Abril 01, 2005

o espaço e o tempo



(pintura de manuela pinheiro "solidão em bola de balão")

O tempo com que conto e não dispenso
Não limita o espaço do que sou
Por isso aparente contrasenso
De tanto que te roubo e que te dou

No tempo que tenho te convenço
Que mesmo os teus limites ultrapasso
Sobras do tempo em que te pertenço
Mas cabes inteirinha no meu espaço

Não sei qual de nós dois veio atrasado
Ou qual dessas metades vou roubando
Entraste no meu tempo já fechado
Ganhando o espaço que me vai sobrando

Por isso não me firas com o teu grito
O espaço não dá tempo à solidão
Não queiras todo o tempo que eu habito
O espaço é infinito o tempo não


manuela de freitas

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

memórias de um chapéu


(aldina duarte)



Quisera então saber toda a verdade
De um chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D'algum segredo antigo e apagado
Sentado junto à porta desse encontro
Ficando sem saber a quem falar
Parado sem saber qual era o ponto
Em que devia então eu começar


Parada na varanda estava ela a meditar
Quem sabe se na chuva, no sol, no vento ou mar
E eu ali parado perdi-me a delirar
Se aquela beleza era meu segredo a desvendar
Porém apagou-se a incerteza
Eram traços de beleza os seus olhos a brilhar
E vendo que outro olhar em frente havia
Só não via quem não queria da paixão ouvir falar


Um dia entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido
As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas

aldina duarte

Terça-feira, Novembro 02, 2004

sem deus nem senhor

(josé mario branco)


A luz é tão cega
Que nunca se entrega
Só se deixa ver
Numa razão de ser
Sem sequer entender
Os olhos que a vão receber

E o rasto que fica
É uma coisa antiga
Que a gente tem pr'a dar
E só pode encontrar
Quando morrer a procurar

Salvo pelo amor
Só se pode ser salvo pelo amor
No sentido perdido ganhador
Não tem Deus nem Senhor
Esta dor
Anda à solta por aí
Que eu bem a vi
Ai, se eu pudesse parar
Se eu vos pudesse contar

Salvo pelo amor
Não existe derrota para a dor
Com o seu capital triturador
Não tem Deus nem Senhor
É simplesmente dor
Que é o que faz questão de ser
Sem entender
Que a vida toda surgiu
De um sol que nunca se viu

Nem sei se existe


José Mario Branco

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

maria II


(pintura de graça morais "maria")

Nova luz, que me rasga dentro d'alma,
Dum desejo melhor me veste a vida...
Outra fada celeste agora leva
Minha débil ventura adormecida.

Não sei que novos horizontes vejo...
Que pura e grande luz inunda a esfera...
Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço,
Em flores vos mudou de primavera?!

Se as noites nos enviam mais segredos,
Ao sacudir seus vaporosos mantos,
Se desprendem do seio mais suspiros...
É que dizem teu nome nos seus cantos.

Nem eu sei se houve amor até este dia...
Nem eu sei se dormi até esta hora...
Mas, quando me roçou o teu vestido,
Abri o meu olhar - acordo agora!

antero de quental

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

maria


(antero de quental)


Tenho cantado esperanças...
Tenho falado d' amores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...

E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que é vida
Só porque sei delirar...

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia levou...
À luz da estranha alvorada
Hoje minha alma acordou!

Esquece aqueles cantos...
Só agora sei falar!
Perdoa-me esses delírios...
Só agora soube amar

antero de quental